Desse lado

você não vê o sapo

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Saturado como a gordura

     Lembro-me da primeira e única vez que fui ao psicólogo, fui obrigado, fazia parte das avaliações para tirar a carteira de motorista. Foi engraçado. Todos aqueles testes de raciocínio, mas muito mais engraçado foi a hora da entrevista, ela disse : você é muito calmo e um dia vai explodir, espero que não seja em um engarafamento. E eu todo ingênuo disse: Eu escrevo, ajuda a não estourar. Mal sabia eu que tinha acabado de mentir. Uma mentira que tenho dado credibilidade a muito tempo. É tanto que escrevo aqui hoje, é uma pura e estranha auto-sabotagem, que talvez funcione.
     Eu vejo minhas fotos, de quando eu era mais novo e não sei como perdi toda aquela inocência e seriedade, é uma merda, mas é verdade. E nesse tempo eu adorava a coisa de ter amigos, acho que adorava porque nunca tive de fato, talvez a cruz que todos carregam seja a amizade. Outrora conheci um garoto que falava com todo orgulho do mundo que ele tinha muita sorte em não ter amigos, hoje não questiono essa frase como questionará na época. Também no mesmo tempo das fotos olhadas, eu gostava da idéia que tinha sobre a família. Família era o reduto de pessoas que acreditavam te conhecer, mas não pelos seus pensamentos, e sim pelos pensamentos que seus pais simulavam sendo você para eles, e adivinha... eu era um ótimo menino. Talvez até fosse. Nunca saberia o que era ser menino ruim e menino bom, com a idade que eu tinha. Pior de tudo... eu achei que poderia saber a diferença quando ganhasse mais primaveras, mas a única coisa que descobri foi o não gostar das relações humanas, a família que gostaria de ter seria algo como as famílias de “O poderoso chefão”, os amigos que gostaria de ter seriam os videogames e as arvores e algumas outras partes da natureza multifacetada.
     Por eu ser homem, eu não presto. Por eu ser humano, preciso culpar alguém. Culpo a jóia intricada que é o tempo. O chamo de puto e dou lhe um dedão entre os olhos. Que olhos? É verdade, o tempo não tem olhos. No máximo tem algumas mãos que usa para mudar as pessoas. Então volto a lhe difamar, digo-lhe que não prestas para nada e que sempre foi um grande filho da puta. Mas percebo ao que estou difamando e paro. Eu não gosto da mudança que teve em mim ou a mudança que teve nas pessoas?
     Meus tios e tias aparecem aqui em casa e fingem me conhecer tão bem que até me assusta, espero não ser como eles pensam que sou, na verdade eu não espero, porque sei que não sou e é disso que tenho raiva. Como as memórias de personalidade se deterioraram tanto? Não, as memórias ficam intactas e o que muda são as pessoas. É isso, descobri. E agora a quem devo culpar?
     Não posso fazer isso, não tenho direito, o que posso fazer é me habituar a reagir com as mudanças de maneira indiferente e é isso que eu vou fazer, espero um dia não cair no controle automático.
   
   Até que gosto das minhas mudanças.

1 Comentários:

Blogger Pedro Leonidas disse...

Gostei desse blog, principalmente desse tópico que aborda os malefícios do tempo, mas pra falar a verdade o tempo que considero como é uma componente do sistema de medições usado para sequenciar eventos, para comparar as durações dos eventos, os seus intervalos tbm serve para obeservar erros do passado afim de não comete-los no futuro

5 de junho de 2010 às 08:21  

Postar um comentário

Assinar Postar comentários [Atom]

<< Página inicial